Vamos voltar no tempo. Imagine a Coreia do Sul no final dos anos 1950, um país que ainda se recuperava da Guerra da Coreia. Foi nessa época que um grande marco aconteceu: em 1956, a primeira emissora comercial, HLKZ-TV, iniciou suas transmissões em Seul. O primeiro programa exibido foi o drama Death Row Prisoner, dirigido por Choi Chang-bong.
No entanto, essa era ainda era muito instável. Heaven’s Gate (천국의 문), exibido ainda em 1956, é considerado o verdadeiro precursor dos dramas coreanos, mas foi uma transmissão isolada. A HLKZ-TV infelizmente pegou fogo em 1969 e fechou as portas.
Foi então que a Korean Broadcasting System (KBS) entrou em cena. Em 1961, a KBS TV foi oficialmente inaugurada, criando as condições para o que consideramos o início oficial dos K-dramas.
1962: O Primeiro Episódio Oficial da História
A data é emblemática: 19 de janeiro de 1962. A KBS TV exibiu aquele que é oficialmente reconhecido como o primeiro drama coreano: I Want to Be Human Too (나도 인간이 되련다).
Você pode estar se perguntando: “O que aconteceu com as transmissões de 1956?” Pois é, a diferença é que, a partir de 1962, a programação passou a ter regularidade. Nasceu ali o formato que conhecemos.
A emissora criou o programa Geumyo Gukjang (금요극장), que foi o marco zero da serialização. No início, os dramas eram majoritariamente curtas-metragens (단막극), adaptações de peças de teatro ou obras literárias famosas.
Os Primeiros Passos Tímidos
Nessa época, a maioria das famílias coreanas ainda não tinha televisão em casa. Assistir TV era um luxo ou uma atividade comunitária, onde os vizinhos se reuniam em volta do único aparelho da rua. Apesar disso, o impacto cultural já era imenso. I Want to Be Human Too foi escrito pelo dramaturgo Yu Chi-jin, uma figura fundamental na história do teatro coreano.
Os Anos 1960: Palco para Grandes Ideias
Com o estabelecimento da KBS e a chegada da TBC (Chosun Broadcasting Company) em 1964, a concorrência deu um gás na criatividade. As tramas começaram a mirar nas preocupações sociais de um país em franco desenvolvimento industrial.
Primeiros Sucessos e Formatos
- Sajikgol Old West Room (1967): Considerado um dos dramas mais populares da década.
- Snowfall (1968): Este é um título histórico, pois é registrado como o primeiro drama diário (Daily Soap Opera) da televisão coreana. Foi um passo gigante para criar o hábito de assistir TV todos os dias.
- Daewongun (1966): Também na TBC, este foi um dos primeiros dramas históricos (sageuk) de sucesso, abrindo caminho para um gênero que seria fundamental nas décadas seguintes.
A Chegada da MBC (1969)
Em 8 de agosto de 1969, a Munhwa Broadcasting Corporation (MBC) entrou no ar, diversificando ainda mais o mercado. Imediatamente, a MBC investiu pesado em dramaturgia.
- Hoesimgok (회심곡 – 1969): Foi um dos primeiros dramas históricos da nova emissora. A palavra “회심곡” significa “Canção do Arrependimento”, e a trama retratava as agruras de uma família aristocrática durante o período Joseon.
Anos 1970: O Povo Abraça os Dramas Diários
Se nos anos 60 os dramas eram novidade, nos anos 70 eles se tornaram um fenômeno nacional. A popularização dos aparelhos de TV nas casas fez com que as novelas se tornassem o centro das conversas no dia seguinte.
A Revolução das Audiências
- Assi (아씨 – 1970): Exibido pela TBC, este é um dos primeiros gigantes do gênero. “Assi” significa “Dama” ou “Senhora”, e a trama focava nos dramas de uma mulher da elite tradicional coreana. O sucesso foi tão grande que dominou as noites coreanas e pavimentou o caminho para os “melodramas familiares” que viriam a seguir.
- Yeo-ro (여로 / Caminho da Mulher – 1972): Este aqui é um dos maiores fenômenos da história da TV coreana. Exibido pela KBS, a história seguia uma mulher que se casava com um homem com deficiência intelectual para sustentar sua família.O impacto foi avassalador: alcançou picos de 90% de audiência, e nas noites em que era exibido, as ruas ficavam vazias. As pessoas literalmente paravam o país para assistir. Além disso, Yeo-ro foi um divisor de águas técnico: foi o primeiro drama a fazer gravações externas (em locações), saindo do estúdio para as ruas. A ideia inicial era de apenas 90 episódios, mas devido ao sucesso, se estendeu para 211 episódios.
- Saemama (새엄마 / Madrasta – 1972): Lançado no mesmo ano pela MBC, este drama completou o trio de sucessos absolutos do início dos anos 70, consolidando o formato de “drama familiar diário” (il-il yeonsokgeuk).
Diversificação de Gêneros
A década de 70 também viu a consolidação dos dramas de temática histórica (Sageuk) e juvenil, que começaram a surgir com força. As produções eram quase sempre em preto e branco, pois a TV a cores só chegaria ao país na próxima década.
Anos 1980: A Cor Chega e a Literatura Ganha Vida
O ano de 1980 foi mágico para os K-dramas. Em 1º de dezembro de 1980, a Coreia do Sul se tornou o 81º país do mundo a inaugurar a era das transmissões coloridas.
O Drama Mais Longevo da História: Jeonwonilgi
E qual foi a produção que simbolizou essa transição? Jeonwonilgi (전원일기 / Country Diaries). Exibido pela MBC a partir de 1980, este é um caso à parte. Ele começou no preto e branco e migrou para o colorido, e durou impressionantes 22 anos no ar, totalizando 1.088 episódios.
A trama contava o cotidiano de uma família na zona rural, mostrando os conflitos entre a geração mais velha e a modernização da cidade. Até hoje, é considerado o “drama nacional” mais emblemático da história do país.
O Refinamento Artístico: TV Literature Hall
Foi também nos anos 80 que os K-dramas ganharam status de obra de arte, principalmente através do programa TV Literature Hall (TV 문학관). Este era um espaço dedicado a adaptar clássicos da literatura coreana para a TV, elevando a qualidade do roteiro e da fotografia.
O Super Sucesso dos Anos 80: Love and Ambition
Se nos anos 70 o fenômeno foi Yeo-ro, nos anos 80 o posto ficou com Love and Ambition (사랑과 야망). Exibido em 1987 pela MBC, este drama alcançou picos de audiência gigantescos, superior a 60% em muitos momentos. Escrito pela lendária roteirista Kim Soo-hyun, a trama retratava a vida de uma família em Chuncheon, lidando com a pobreza e os desafios da industrialização.
A Mini Série Revoluciona o Formato: Bulsae
Ainda em 1987, um marco estrutural: Bulsae (불새 / Phoenix). Este drama, exibido pela MBC, foi um dos primeiros a adotar o formato de “minissérie” na Coreia. Mais curto e dinâmico, quebrou o padrão das novelas de centenas de episódios e abriu portas para as produções mais ágeis que viriam na Hallyu dos anos 2000.
Consolidação Técnica e de Mercado
Com o colorido e a popularização dos aparelhos, os dramas ganharam mais investimento em figurinos, cenários e, principalmente, em roteiros. Escritores como Kim Soo-hyun se tornaram celebridades, e a briga pela audiência entre KBS e MBC (e mais tarde SBS, fundada em 1990) ficou cada vez mais acirrada.
O Legado: A Base para a Onda Coreana
A Era Pioneira (1960-1990) foi a grande sala de aula dos K-dramas. Foi nesse período que os produtores coreanos aprenderam a dominar os formatos, a entender o gosto do público e a usar a televisão como ferramenta de transformação social.
- Aprendizado Técnico: A evolução do estúdio (Yeo-ro) para as locações externas e do preto e branco para as cores coloridas foi fundamental.
- Consolidação de Gêneros: Se hoje amamos os Sageuks (históricos), Makjangs (dramas extremos) e Rom-Coms, foi nessa época que as bases foram firmadas.
- Conexão com o Povo: A audiência absurda de Yeo-ro (90%) e Love and Ambition mostrou que os dramas coreanos tinham a capacidade única de falar diretamente à alma e às preocupações do cidadão comum.
Sem as ousadias de Assi, as lágrimas de Yeo-ro e a sensibilidade literária do TV Literature Hall, os fenômenos mundiais como Winter Sonata ou Crash Landing on You não teriam o solo fértil que encontraram.
Conclusão: Onde Tudo Começou
A história dos K-dramas não começou com os gigantes de 1 bilhão de dólares da Netflix. Ela começou com um punhado de atores em um estúdio minúsculo da HLKZ-TV em 1956, com o sonho de emocionar uma nação que se reconstruía.
Assistir a essas produções antigas, como I Want to Be Human Too (1962) ou Yeo-ro (1972), é enxergar os alicerces do que tornaria a Coreia uma potência cultural. É ver a semente sendo plantada, regada pela criatividade e pelo desejo de contar boas histórias.
Portanto, da próxima vez que você maratonar um K-drama moderno, lembre-se: o episódio mais importante da história foi aquele preto e branco, cheio de chiado, que fez uma família inteira se reunir em frente à TV pela primeira vez. Esse foi o verdadeiro começo de tudo.



